Pio Brasileiro realiza nova formação sobre proteção de menores e vulneráveis

O Pontifício Colégio Pio Brasileiro, em Roma, promoveu nesta terça-feira, dia 28 de abril, mais um evento da Jornada Formativa centralizada na proteção e salvaguarda de menores e pessoas vulneráveis. O encontro contou com a assessoria de Frei João Ferreira Júnior, secretário-executivo do Núcleo Lux Mundi, e do sociólogo Carlos Wagner J. Lieders, que conduziram um debate profundo sobre a aplicação do Motu Proprio “Vos estis lux mundi” e os desafios inerentes à realidade brasileira.

A discussão destacou que a Igreja vive atualmente uma transição fundamental, marcada por “deslocamentos semânticos” necessários para enfrentar o fenômeno dos abusos. Frei João Ferreira Júnior ressaltou que o tema está deixando de ser tratado sob uma ótica estritamente canônica e judicial, focada quase exclusivamente no delito e na punição posterior, para adotar uma abordagem mais eclesial e pastoral. Segundo o Frei, essa mudança eclesiológica convoca todo o Povo de Deus a uma nova postura, permitindo que o Direito Canônico seja permeado por uma visão mais evangélica, que envolva a teologia dos ministérios e a catequese.

Essa nova perspectiva expande a compreensão do abuso para além da esfera sexual, englobando o abuso de poder, de consciência e o abuso espiritual. Os assessores explicaram que é preciso superar a visão do abuso como um evento excepcional ou individual, a chamada teoria da “maçã podre”, para investigar os elementos sistêmicos e institucionais que permitem o silenciamento das vítimas. Além disso, houve um alerta para a necessidade de olhar “para dentro”, reconhecendo que a vulnerabilidade não é exclusiva de ambientes externos, mas pode estar presente em seminários, casas paroquiais e nas próprias estruturas de governo da vida religiosa.

Carlos Wagner contextualizou essas dificuldades dentro das singularidades do cenário brasileiro, citando as vastas distâncias geográficas e as profundas desigualdades socioeconômicas como barreiras para a autonomia dos indivíduos e o acesso à informação. O sociólogo apontou que a naturalização da violência na cultura brasileira muitas vezes impede que se perceba ambientes eclesiais como locais potencialmente inseguros. Para ele, a forte dependência que muitas comunidades têm das instituições religiosas acaba criando um terreno fértil para o silenciamento, já que denunciar um agressor pode ser visto, equivocadamente, como um ato de traição à instituição.

A jornada encerrou-se com uma reflexão sobre os temas que ainda permanecem inacabados na Igreja do Brasil. Entre os desafios urgentes estão a implementação de políticas de proteção que não sejam meros “escudos institucionais”, a integração da prevenção na formação permanente do clero e a criação de uma verdadeira cultura de reparação. Frei João enfatizou que a reparação não deve ser compreendida apenas no âmbito financeiro, mas começa obrigatoriamente pelo reconhecimento institucional da dor da vítima, garantindo acolhida, acompanhamento e a promessa de que tais fatos não voltem a ocorrer.

Após encerramento das exposições, o Padre Antonio Depizzoli, Diretor de Estudos do Colégio, tomou a palavra para agradecer formalmente aos assessores pela clareza e profundidade das reflexões partilhadas. O Diretor lembrou que o processo formativo é contínuo e anunciou que a próxima formação sobre o tema já possui data agendada para o dia 13 de maio.

O encontro reforçou que a relação entre prevenção e sinodalidade é o caminho para uma Igreja mais transparente e segura para todos, reafirmando que a reparação e a acolhida são deveres fundamentais de toda a comunidade eclesial.