A comunidade do Pontifício Colégio Pio Brasileiro realizou, nesta quarta-feira, 13 de maio, o terceiro encontro de sua Jornada Formativa dedicada à Proteção de Menores e Pessoas Vulneráveis. O evento contou com a assessoria do Padre Hans Zollner, SJ, diretor do Instituto de Antropologia da Pontifícia Universidade Gregoriana e um dos maiores especialistas mundiais no tema. Em uma reflexão que uniu as perspectivas antropológica, institucional e formativa, o conferencista provocou os presentes a olharem para a questão dos abusos na Igreja não apenas como falhas disciplinares ou sob a ótica da gestão de crises, mas como um desafio que toca a identidade profunda da missão cristã, como um chamado profundo à purificação e ao renovo da missão sacerdotal e eclesial.
Iniciando sua exposição a partir de uma iconografia bíblica, Padre Zollner sublinhou que a missão da Igreja é tornar Jesus presente para aqueles que têm sede de cura e acolhimento, identificando as feridas das vítimas como feridas no próprio Corpo de Cristo. O conferencista enfatizou que o conceito de “safeguarding” (salvaguarda) vai muito além da aplicação de normas frias, exigindo a construção de relações, espaços e processos genuinamente seguros.
Ao aprofundar a dimensão formativa, o conferencista fundamentou sua análise no magistério de São João Paulo II, especificamente na exortação Pastores dabo vobis, ao recordar que a formação humana é a base indispensável sobre a qual se constroem as dimensões espiritual, intelectual e pastoral. Padre Zollner lançou um questionamento crítico aos modelos atuais de seminários, onde o investimento em estudos e práticas piedosas muitas vezes eclipsa o tempo necessário para o amadurecimento humano e o equilíbrio afetivo do futuro sacerdote. Segundo o jesuíta, sem uma base humana sólida, o clérigo torna-se mais vulnerável a dinâmicas de isolamento e ao desenvolvimento de comportamentos inadequados que podem degenerar em abusos de diversas naturezas. “A formação humana, base de todo o edifício vocacional é o terreno onde se cultiva a autoconsciência, a gestão dos limites e a responsabilidade, elementos essenciais para prevenir a cultura do abuso”, afirmou.
Um dos pontos centrais da formação foi a análise teológica e prática do poder dentro das instituições religiosas, ressaltando a constatação de que a Igreja, embora exercite o poder em múltiplos níveis, carece de uma teologia e espiritualidade do poder suficientemente desenvolvidas. Zollner explicou que o abuso de poder é a raiz de quase todos os outros tipos de violações, sejam físicas, sexuais ou espirituais, e que o combate a essa cultura exige uma revisão do conceito de obediência. Em sua visão, a verdadeira obediência cristã não pode ser confundida com submissão cega ou anulação da vontade, mas deve ser um ato de liberdade e responsabilidade, um seguimento livre a Cristo. O modelo bíblico para o exercício da autoridade, segundo ele, é o de Jesus na cruz, onde o poder se manifesta como entrega total e serviço, invertendo a lógica do domínio mundano para o triunfo da caridade. Zollner destacou que o abuso de poder muitas vezes precede o abuso sexual ou espiritual, ocorrendo quando as estruturas se tornam autorreferenciais e perdem a transparência.
A conferência também abordou a evolução do foco na proteção de vulneráveis nos últimos dez anos, destacando que a vigilância deve se estender para além dos menores, alcançando adultos em situação de fragilidade, como seminaristas, religiosas, idosos e migrantes. Padre Zollner destacou o parágrafo profético de Papa Bento XVI ao identificar as feridas das vítimas com as próprias feridas do Corpo de Cristo, reforçando que a cura da instituição passa obrigatoriamente pela solidariedade e pela justiça verdadeira, que acolhe tanto a vítima quanto o acusado sob o manto da misericórdia. Ele alertou para o fato de que, apesar de a Igreja Católica possuir atualmente os protocolos mais eficazes do mundo na proteção infantil, o reconhecimento midiático dessa realidade ainda é prejudicado pela dificuldade histórica em lidar com os erros do passado de forma humilde e transparente.
Para o especialista, a criação de espaços seguros exige que o exercício da autoridade seja acompanhado por conselhos consultivos reais e amigos verdadeiros que possam confrontar e criticar, evitando o isolamento do pastor. O conferencista apontou que, embora a Igreja tenha avançado significativamente na implementação de protocolos e linhas guia, o verdadeiro triunfo contra a cultura do abuso reside na conversão do coração e na mudança de mentalidade. Citando o Papa Francisco e seus antecessores, Padre Zollner recordou que o enfrentamento dessa realidade é um caminho de longo prazo que exige transparência, sinceridade e solidariedade concreta com as vítimas.
Ao encerrar o encontro, Padre Hans Zollner utilizou as chaves de leitura de Santo Inácio de Loyola sobre o discernimento espiritual para analisar o momento atual da Igreja. Ele descreveu o sentimento de desânimo diante da crise dos abusos e da diminuição das vocações como uma forma de “desolação espiritual”, caracterizada pela diminuição da fé, da esperança e da caridade. Para o conferencista, a superação desse estado não será alcançada apenas por meio de leis ou ferramentas psicológicas, mas por um retorno às fontes espirituais profundas.
A Jornada formativa do Pio Brasileiro concluiu-se, assim, com o entendimento de que a proteção aos vulneráveis é uma missão intrínseca à identidade sacerdotal, exigindo que cada pastor cultive o discernimento, a transparência e a disposição para ser um instrumento de renovação da cultura eclesial a partir da teologia do cuidado e da revisão do uso do poder.








