Com o intuito de promover a formação permanente dos padres-estudantes residentes, o Pontifício Colégio Pio Brasileiro, em consonância com as diretrizes da Santa Sé e da Conferência Nacional de Bispos do Brasil (CNBB), iniciou nesta quarta-feira, dia 4 de março, a Jornada Formativa sobre a proteção de menores e pessoas vulneráveis na Igreja. Esta foi a primeira de quatro conferências acerca da temática, que visa conscientizar os agentes da Igreja sobre a responsabilidade diante do drama dos abusos em ambientes eclesiais.
Integrante do Serviço Nacional de Proteção de Menores da Conferência Episcopal Italiana, a psicóloga Anna Deodato, especialista em apoio a vítimas há mais de duas décadas, apresentou uma análise impactante que desmistifica o abuso como um ato isolado, definindo-o como um sistema complexo de relações baseado na dominação e na submissão. Segundo a especialista, há várias formas de abusos, mas o abuso de amizade é a porta de entrada para essa dinâmica, que ocorre quando alguém em posição de autoridade se apropria de algo que outra pessoa não quer dar, violando os limites fundamentais da dignidade humana.
Anna Deodato destacou que esse tema é essencial não para recuperar uma imagem institucional, mas porque “o corpo de Cristo está ferido” e assim, é necessário uma cultura de cuidado e proteção em todos os ambientes eclesiais. “Há a necessidade de a Igreja assumir uma responsabilidade concreta, oferecendo não apenas apoio legal ou canônico, mas sim de oferecer hospitalidade e proteção, que nos permitam trilhar um caminho de cuidado em cada comunidade”, ressaltou.
A formação de relacionamentos abusivos ocorre frequentemente em momentos de maior vulnerabilidade na vida, como períodos de luto, divórcios, separações familiares ou crises profissionais, onde a pessoa se encontra em uma “relação de preferência” que causa confusão emocional. Esse mecanismo perverso anula a capacidade reflexiva da vítima e cria uma ambivalência paralisante entre sentimentos de amor e ódio, resultando em um relacionamento destrutivo. Ela explicou que a intimidação, seja implícita ou explícita é constante, pois o agressor muitas vezes se aproveita do vitimismo para manter o controle sobre a situação e sobre a pessoa ferida..
Para a vítima, o trauma representa uma ruptura trágica e definitiva que separa a vida entre um “antes” e um “depois”, delimitando uma ferida que não perdura somente na memória, mas que “escorre” e impregna toda a existência, afetando a maneira de pensar, refletir e se relacionar. Sentimentos mistos, confusão, vergonha e culpa criam um quadro de agitação e impotência na vítima. Isso exige da Igreja um acolhimento misericordioso com “filtro evangélico” na escuta, levando cada padre a questionar o que realmente pensa e sente ao encontrar alguém que está sofrendo abuso.
Anna Deodato enfatizou que a Igreja não deve ser vista como uma instituição má, mas sim como uma instituição ferida que deve assumir uma responsabilidade paternal tanto pela vítima quanto pelo agressor, garantindo que as vítimas sejam amparadas e integradas nos processos de cuidado e dignidade. O objetivo final do processo de recuperação é permitir que a vítima se liberte de suas feridas, viva com dignidade, seja amada e possa retornar à sua vocação original. Anna Deodato enfatizou que a missão eclesiástica de hoje exige pessoas sãs e corajosas, capazes de usar a inteligência e a coragem para proteger os mais vulneráveis dentro da comunidade.








